Perícia de SP admite falhas em dados de investigação

14 de setembro de 2026

Laudos do Instituto de Criminalística de São Paulo apontam que o órgão não mantém cópias de segurança dos dados extraídos de aparelhos apreendidos durante uma investigação que envolve o contrato do Wi-Fi Livre da Prefeitura de São Paulo e que também alcançou o caso do filme “Dark Horse”, ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

A informação consta em documentos produzidos pela própria perícia e ganhou relevância depois que parte dos equipamentos apreendidos precisou ser devolvida à Polícia Civil devido a problemas relacionados ao acondicionamento e aos lacres. Os materiais tiveram de ser novamente embalados e lacrados antes de retornarem para análise.

Segundo o Laudo Pericial 228.263/2026, o Núcleo de Perícias de Informática afirma que não possui estrutura suficiente para armazenar o grande volume de informações extraídas diariamente dos dispositivos. Por esse motivo, os dados obtidos durante os exames não são mantidos em backup pelo núcleo.

Outro documento, o Laudo 228.226/2026, registra que o Instituto de Criminalística também não possui, até o momento, uma Central de Custódia Digital destinada ao controle e à guarda do conteúdo extraído dos equipamentos periciados.

Na prática, caso os investigadores precisem repetir uma extração, será necessário apresentar novamente o aparelho original e fazer uma nova solicitação de perícia. Os próprios peritos alertam, porém, que uma nova tentativa pode não conseguir recuperar os dados, dependendo das condições do equipamento.

Equipamentos tiveram problemas com os lacres

A situação chama atenção porque parte dos equipamentos apreendidos na investigação já havia retornado à Polícia Civil antes da realização dos exames.

Os dispositivos foram recolhidos em 1º de junho, durante uma operação realizada em endereços relacionados ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), empresas envolvidas na execução do Wi-Fi Livre e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.

Em 8 de junho, uma certidão registrou que os objetos haviam retornado do Instituto de Criminalística e precisavam passar por uma nova adequação dos invólucros, além da colocação de novos lacres.

A justificativa apresentada no documento foi preservar a integridade dos materiais e garantir a manutenção da cadeia de custódia, conjunto de procedimentos destinado a assegurar que uma prova permaneça devidamente identificada, protegida e rastreável desde a apreensão até sua análise.

Depois da adequação, os equipamentos foram novamente encaminhados para a perícia.

Alguns aparelhos não puderam ser acessados

Os laudos também relatam dificuldades técnicas para acessar determinados dispositivos.

Em um iPhone apreendido em um endereço relacionado à empresa Complexys/FastFuture, por exemplo, o aparelho estava protegido por uma senha numérica de seis dígitos que não havia sido fornecida aos peritos. A ferramenta disponível para análise também não conseguiu realizar o desbloqueio.

Com isso, o laudo informou que não foi possível determinar se havia conteúdo de interesse armazenado no aparelho.

Outro equipamento, recolhido em um endereço ligado à Urban Connect, apresentava armazenamento criptografado. Como a chave necessária para acessar os arquivos não foi disponibilizada, a perícia também não conseguiu analisar o conteúdo.

Essas dificuldades não significam, segundo os documentos, que os dados tenham sido apagados ou adulterados. Elas demonstram, porém, que a recuperação de informações digitais depende tanto da preservação física dos equipamentos quanto das condições técnicas para realizar os procedimentos de extração.

Perícia também registra fila de exames

Os documentos apontam ainda limitações relacionadas à capacidade de atendimento do Instituto de Criminalística.

Em um dos casos, envolvendo um notebook apreendido na Complexys/FastFuture, o equipamento foi atribuído ao perito em 3 de julho, mas os trabalhos só começaram em 23 de julho, quando o invólucro foi aberto.

De acordo com o próprio laudo, o intervalo ocorreu em razão do elevado volume de casos e da consequente fila de exames pendentes sob responsabilidade do perito.

Apesar das dificuldades, nesse equipamento específico os procedimentos previstos conseguiram ser realizados.

Investigação envolve Wi-Fi Livre e filme “Dark Horse”

Os laudos fazem parte da investigação da Polícia Civil sobre o contrato do Wi-Fi Livre da Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama.

A apuração passou a alcançar também questões relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, produzido pela Go Up Entertainment, empresa também ligada a Karina Gama.

A investigação reúne diferentes dispositivos eletrônicos apreendidos durante as diligências e depende dos exames realizados pelo Instituto de Criminalística para identificar e analisar possíveis informações relevantes.

O que diz a Secretaria da Segurança Pública

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que os 27 dispositivos citados foram lacrados pela Polícia Civil nos locais das apreensões, na presença de testemunhas, e posteriormente encaminhados à Superintendência da Polícia Técnico-Científica.

Segundo a SSP, a devolução inicial dos equipamentos ocorreu de forma preventiva durante a etapa de protocolo técnico do Instituto de Criminalística. A secretaria afirmou que, embora os lacres estivessem íntegros, algumas embalagens apresentavam pequenos espaços e precisaram ser adequadas.

A pasta declarou ainda que os materiais foram novamente lacrados e posteriormente recebidos pela perícia, sustentando que não houve acesso, extração ou manipulação dos dados durante esse procedimento e que a cadeia de custódia não foi comprometida.

A SSP também afirmou que os arquivos permanecem guardados nos materiais periciados e no sistema, em posicionamento que diverge da informação registrada nos laudos sobre a ausência de backup das extrações.