Flávio Bolsonaro apaga posts antigos em que criticava o Bolsa Família e chamava benefício de “bolsa-farelo”
O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apagou publicações antigas de sua conta no X, antigo Twitter, nas quais criticava o Bolsa Família e classificava o benefício social como “bolsa-farelo”. As mensagens também continham acusações de que o PT utilizava programas de transferência de renda para conquistar apoio eleitoral.
A exclusão das postagens foi identificada pelo jornal Estadão, que havia arquivado o histórico de publicações do senador em junho de 2026. O material reúne textos, datas, horários e links das mensagens originais, permitindo verificar quais conteúdos foram removidos.
A retirada dos posts ocorre em meio à campanha presidencial e à tentativa de Flávio de reforçar que pretende manter o Bolsa Família caso seja eleito. Em vídeo publicado nas redes sociais na segunda-feira (19), o candidato afirmou que os beneficiários podem ficar tranquilos porque o auxílio está garantido.
Publicações antigas traziam críticas ao programa
Entre as mensagens excluídas está uma publicação de junho de 2013, na qual Flávio afirmava que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”.
Em outra postagem, feita em 2014, o então parlamentar ironizou o programa social ao comentar a Comissão Nacional da Verdade, criada para investigar violações de direitos humanos durante a ditadura militar.
Na ocasião, escreveu que a comissão teria descoberto que “dinheiro cai do céu” e que ninguém precisaria trabalhar para sustentar quem recebia o Bolsa Família.
Em outra mensagem daquele ano, Flávio questionou os indicadores de desemprego e associou os beneficiários de programas sociais à falta de procura por trabalho. “Os milhões que recebem bolsa-família ou auxílio-desemprego, não procuram emprego. Para o PT, estão empregados”, escreveu.
Segundo o levantamento divulgado pelo Estadão, todas as publicações citadas em uma reportagem anterior sobre a mudança de posicionamento do senador foram removidas de seu perfil.
Senador também atacou programa estadual
A expressão “bolsa-farelo” também foi utilizada por Flávio para criticar o programa Renda Melhor, criado pelo governo do Rio de Janeiro em 2011 para complementar a renda de famílias que já recebiam o Bolsa Família.
A iniciativa previa pagamentos adicionais de até R$ 300 para combater a extrema pobreza.
Na época, Flávio era deputado estadual e votou contra o projeto na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Em uma publicação de novembro de 2011, afirmou ter sido o único voto contrário à proposta e classificou o programa como de “caráter clientelista eleitoral”.
O então deputado também disse ter apresentado emendas para limitar a dois anos o período de recebimento do auxílio. As mensagens sobre o assunto também foram apagadas.
Em outra publicação daquele período, Flávio criticou um acordo entre o PT e partidos de oposição para aprovar um reajuste de benefício social, classificando a medida como uma forma de financiamento público de campanha.
Campanha propõe regra de transição de dois anos
O histórico de declarações voltou ao debate após Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, defender uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que aumentarem a renda.
Em entrevista à CBN Bahia na segunda-feira (19), ela afirmou que a proposta permitiria que as famílias aceitassem empregos com carteira assinada ou abrissem negócios sem perder imediatamente a proteção financeira oferecida pelo programa.
Segundo Daniella, a intenção é incentivar a autonomia financeira dos beneficiários e facilitar a entrada no mercado de trabalho.
A proposta gerou repercussão nas redes sociais, com apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmando que a medida poderia levar ao desligamento de famílias do programa após dois anos.
Diante das críticas, a coordenadora econômica divulgou um vídeo para esclarecer que a regra não prevê o corte automático do benefício para todos os participantes. Ela afirmou que a proposta amplia o período de proteção para quem consegue aumentar a renda e prevê retorno automático ao programa em caso de necessidade.
Flávio também se manifestou nas redes sociais e negou que pretenda acabar com o Bolsa Família ou reduzir os pagamentos.
Exclusão das mensagens gera questionamentos
O Estadão procurou a campanha de Flávio Bolsonaro para questionar os motivos da exclusão das publicações, mas não recebeu resposta até a divulgação da reportagem.
A remoção das mensagens ocorre em um momento em que o Bolsa Família se tornou um dos temas do debate entre os candidatos à Presidência. A discussão envolve a continuidade do benefício, as condições de permanência no programa e os mecanismos para incentivar a entrada dos beneficiários no mercado de trabalho.
A diferença entre as críticas feitas por Flávio entre 2011 e 2014 e as declarações atuais sobre a manutenção do auxílio passou a ser explorada pelos adversários na disputa eleitoral.


