Brasil sai do Mapa da Fome, mas 44,8 milhões não têm alimentação saudável

30 de outubro de 2026

Apesar de ter deixado novamente o Mapa da Fome, o Brasil ainda enfrenta um grande desafio para garantir o acesso da população a uma alimentação saudável. Cerca de 44,8 milhões de brasileiros, o equivalente a 21,1% da população, não têm condições financeiras de adquirir regularmente uma dieta equilibrada, com cereais, frutas, verduras, legumes e fontes de proteína nas quantidades recomendadas.

Os dados fazem parte do relatório O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (SOFI), divulgado em julho de 2026 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O levantamento mostra que, embora o país tenha avançado no combate à fome, milhões de pessoas ainda convivem com dificuldades para manter uma alimentação adequada.

O estudo também aponta que 20,3 milhões de brasileiros enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave entre 2023 e 2025. Isso significa que essas pessoas não tiveram acesso regular a alimentos em quantidade ou qualidade suficientes para manter uma vida saudável. No período de 2021 a 2023, esse contingente era de 39,7 milhões, indicando uma redução expressiva.

Desigualdade amplia a vulnerabilidade

A insegurança alimentar atinge principalmente famílias chefiadas por mulheres, especialmente mulheres negras. As regiões Norte e Nordeste também concentram uma parcela significativa da população que enfrenta dificuldades para ter acesso a alimentos nutritivos.

Especialistas relacionam esse cenário a fatores como baixos salários, informalidade, instabilidade profissional e interrupções na renda familiar. Trabalhadores com vínculos precários, como parte das empregadas domésticas, por exemplo, podem enfrentar períodos sem remuneração, o que compromete a capacidade de manter uma alimentação adequada.

Outro obstáculo é a dificuldade de fazer com que as políticas públicas cheguem de maneira contínua às pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Segundo especialistas em segurança alimentar, muitas famílias até têm contato com serviços de saúde ou assistência social, mas não recebem acompanhamento integrado para atender às diferentes necessidades.

Saída do Mapa da Fome não significa fim do problema

O Brasil deixou o Mapa da Fome pela segunda vez em 2025, conforme os dados divulgados pela ONU. O indicador considera a proporção da população que não consome calorias suficientes para levar uma vida saudável. Para ser considerado fora do mapa, o índice de subalimentação precisa ficar abaixo de 2,5%.

A primeira saída ocorreu em 2014, mas o país voltou a integrar o indicador em 2022, em meio ao agravamento da pobreza, aos efeitos da pandemia de Covid-19 e ao enfraquecimento de políticas de segurança alimentar. Naquele período, 61,3 milhões de brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo os dados citados no levantamento.

A melhora mais recente é atribuída, entre outros fatores, à recuperação da renda das famílias, aos reajustes do salário mínimo acima da inflação e à retomada de programas de apoio à produção e à distribuição de alimentos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

O programa permite que o poder público compre produtos de agricultores familiares, garantindo renda aos produtores, e destine os alimentos a pessoas em situação de vulnerabilidade, além de instituições como escolas e hospitais.

Produção local pode facilitar o acesso a alimentos frescos

Outro ponto destacado por especialistas é a necessidade de aproximar a produção de alimentos dos locais de consumo. Parte da produção agrícola brasileira é direcionada ao mercado externo, enquanto determinadas regiões enfrentam dificuldades para encontrar frutas, verduras e outros produtos frescos a preços acessíveis.

Um exemplo citado é o Vale do São Francisco, onde a produção de frutas, como manga e uva, tem forte direcionamento para exportação. Especialistas defendem que também sejam valorizados os alimentos tradicionais e a produção destinada ao abastecimento das comunidades próximas.

O incentivo à agricultura familiar, responsável por cerca de 60% da produção de hortaliças no país, é apontado como uma das alternativas. A ampliação de feiras livres, pontos de venda direta e medidas que reduzam os custos para pequenos comerciantes também pode ajudar a melhorar a oferta de alimentos saudáveis.

Desertos alimentares dificultam a alimentação saudável

A dificuldade de acesso não está relacionada apenas à renda. Em algumas regiões, principalmente nas periferias urbanas, a população encontra poucos estabelecimentos que comercializam alimentos frescos e nutritivos.

Esses locais são conhecidos como desertos alimentares. Neles, moradores precisam percorrer distâncias maiores para comprar frutas, verduras e outros produtos saudáveis.

Já os chamados pântanos alimentares são áreas onde há maior concentração de estabelecimentos que vendem produtos ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos e biscoitos, em comparação com locais que oferecem alimentos frescos.

Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social indicam que aproximadamente 25 milhões de brasileiros viviam em desertos alimentares entre 2023 e 2024. Desse total, 6,7 milhões eram pessoas de baixa renda ou em situação de pobreza. Os pântanos alimentares, por sua vez, atingiam cerca de 15 milhões de pessoas.

Além da oferta limitada, a rotina de trabalho e a falta de tempo também influenciam os hábitos alimentares. Famílias com jornadas extensas podem ter menos disponibilidade para preparar refeições com alimentos frescos, recorrendo com maior frequência a produtos prontos e ultraprocessados.

Integração de políticas públicas é apontada como caminho

Para reduzir a insegurança alimentar, especialistas defendem que as políticas de saúde, assistência social e segurança alimentar atuem de forma integrada. A proposta é identificar as famílias em situação de vulnerabilidade e garantir que elas recebam acompanhamento contínuo, em vez de atendimentos isolados.

Uma das iniciativas nesse sentido é o Protocolo Brasil Sem Fome, que busca articular diferentes redes de atendimento em municípios com indicadores mais preocupantes. Assim, uma pessoa identificada em uma unidade de saúde, por exemplo, poderá ser encaminhada também para serviços de assistência social e programas de acesso à alimentação.

A busca ativa de famílias e o cruzamento de informações com o Cadastro Único também são apontados como estratégias importantes para localizar quem precisa de apoio e enfrenta dificuldades para acessar os benefícios disponíveis.

Os números mostram que o país conseguiu reduzir a fome e sair novamente do indicador internacional, mas ainda precisa avançar para que milhões de brasileiros tenham condições de comprar alimentos variados e nutritivos. O desafio, portanto, não se limita a garantir calorias suficientes, mas envolve renda, acesso, oferta de produtos frescos e continuidade das políticas públicas.