Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, em Vinhedo, os familiares das 62 vítimas tiveram acesso, pela primeira vez, ao conteúdo da caixa-preta da aeronave e ao laudo pericial elaborado pela Polícia Federal. O encontro, realizado em Campinas, representa um avanço importante nas investigações e marca a reta final do inquérito que apura as responsabilidades pela tragédia ocorrida em 9 de agosto de 2024.
Durante a reunião, os familiares e representantes da Associação das Vítimas conheceram a transcrição das conversas registradas na cabine de comando nos últimos minutos antes da queda do avião. Também tiveram acesso a um laudo técnico com mais de 200 páginas, produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística, que reúne análises sobre as condições da aeronave, a operação do voo e outros elementos considerados fundamentais para a investigação.
Segundo os representantes das famílias, o documento aponta indícios de falhas operacionais e nas condições de trabalho dos pilotos. Entre os elementos apresentados estariam informações de que a aeronave já havia enfrentado situações de risco em voos anteriores, reforçando a suspeita de problemas que precisavam ser corrigidos antes da operação do voo que terminou em tragédia.
Após o acesso ao material, os familiares anunciaram que pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais contra os responsáveis. O objetivo é buscar reparação judicial e responsabilização daqueles que, segundo eles, contribuíram para que a aeronave fosse autorizada a decolar.
O advogado da associação que representa as vítimas afirmou que a investigação está próxima de ser concluída e que a expectativa é de que ocorram indiciamentos nos próximos dias. De acordo com ele, o inquérito deverá ser finalizado em cerca de 30 dias e encaminhado ao Ministério Público Federal, que decidirá sobre o eventual oferecimento de denúncia criminal.
A presidente da associação dos familiares também cobrou justiça e afirmou que as informações apresentadas reforçam a convicção de que a tragédia poderia ter sido evitada. Para ela, o acidente foi resultado de uma sucessão de falhas e negligências que agora precisam ser apuradas e responsabilizadas pelas autoridades.
Além da investigação conduzida pela Polícia Federal, o caso continua sendo analisado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). Uma das principais linhas de apuração envolve um possível problema no sistema de degelo da aeronave ATR 72-500, hipótese levantada desde os primeiros relatórios técnicos sobre o acidente.
O voo 2283 partiu de Cascavel (PR) com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), mas caiu em uma área residencial de Vinhedo, provocando a morte de todos os 62 ocupantes. A tragédia é considerada o maior acidente da aviação comercial brasileira desde 2007 e permanece como uma das investigações mais complexas da história recente do setor aéreo no país.