Fiocruz desenvolve vacina brasileira de RNA
O Brasil avançou no desenvolvimento de uma nova plataforma para produção de vacinas com tecnologia de RNA mensageiro (RNAm). A tecnologia, que ganhou destaque mundial durante a pandemia de Covid-19, agora começa a ser utilizada em um projeto desenvolvido integralmente no país pela Fiocruz, por meio do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos).
A primeira vacina brasileira desenvolvida nessa plataforma é destinada à Covid-19 e recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os estudos clínicos de Fase 1. A etapa tem como objetivo principal avaliar a segurança e a resposta imunológica provocada pelo imunizante.
O estudo deverá contar com 90 adultos saudáveis, entre 18 e 59 anos, que serão acompanhados durante o período da pesquisa. Os participantes serão recrutados no Rio de Janeiro, na Unidade de Ensaios Clínicos para Imunobiológicos e na Policlínica Lincoln de Freitas Filho.
Como funciona o RNA mensageiro?
O RNA mensageiro funciona como uma espécie de instrução temporária para as células. Em vez de introduzir no organismo o vírus inteiro ou uma versão capaz de provocar a doença, a vacina utiliza uma molécula que carrega informações para que as células produzam uma proteína específica do agente infeccioso.
No caso da vacina brasileira contra a Covid-19, o RNAm contém instruções relacionadas à proteína Spike, presente na superfície do coronavírus. A produção dessa proteína pelo organismo permite que o sistema imunológico reconheça o alvo e desenvolva uma resposta de defesa.
Depois de cumprir sua função, o RNA mensageiro é degradado pelo próprio organismo. A tecnologia não altera o DNA das células.
Uma plataforma que pode ser adaptada
Uma das principais características dessa tecnologia é a possibilidade de utilizar uma mesma estrutura de produção para diferentes vacinas e terapias, modificando as informações genéticas utilizadas para estimular a resposta desejada.
Segundo a Fiocruz, a plataforma nacional poderá ser utilizada futuramente em pesquisas contra outras doenças. Já existem estudos relacionados a leishmaniose e tuberculose, além de pesquisas que avaliam possibilidades de aplicação do RNA mensageiro em terapias para diferentes tipos de câncer.
A plataforma brasileira também utiliza um sistema de partículas lipídicas para proteger o RNA mensageiro e auxiliar sua entrada nas células. Esse tipo de estrutura é importante porque a molécula de RNA é naturalmente instável e precisa ser protegida para conseguir cumprir sua função.
Tecnologia desenvolvida no Brasil
O desenvolvimento da plataforma nacional é considerado estratégico para ampliar a capacidade brasileira de pesquisar e produzir imunizantes. A Fiocruz passou a desenvolver pesquisas com RNA mensageiro em 2018 e, desde 2021, Bio-Manguinhos é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como centro de referência em vacinas de RNAm na América Latina.
A iniciativa também está relacionada ao Programa Global de Transferência de Tecnologia de RNA Mensageiro da OMS, que busca ampliar a capacidade de países de baixa e média renda para desenvolver e fabricar esse tipo de produto. A Fiocruz foi o primeiro parceiro da iniciativa a ter um produto autorizado para avançar aos estudos clínicos.
O que acontece agora?
A autorização da Anvisa permite o início da Fase 1, mas ainda não significa que a vacina esteja pronta para ser utilizada pela população.
Nessa etapa, os pesquisadores vão avaliar principalmente a segurança e a imunogenicidade do imunizante. Caso os resultados sejam positivos, serão necessárias novas etapas de pesquisa clínica, com um número maior de participantes, antes de uma eventual solicitação de registro e uso amplo.
A previsão divulgada pela Fiocruz é de que o recrutamento dos participantes comece no primeiro trimestre de 2027, após as etapas necessárias de aprovação ética.
O avanço representa, portanto, uma nova etapa na construção de uma capacidade nacional de desenvolvimento de vacinas de RNA mensageiro, tecnologia que poderá ser adaptada para diferentes doenças e também para futuras emergências sanitárias.


