Estudo alerta para risco cardíaco após covid

12 de setembro de 2026

Um estudo internacional liderado por um pesquisador brasileiro chama atenção para um possível efeito prolongado da covid-19 sobre a saúde cardiovascular de pessoas com 65 anos ou mais. A pesquisa indica que idosos que foram hospitalizados durante o período de circulação da variante ômicron, considerada inicialmente menos agressiva do que versões anteriores do coronavírus, continuaram apresentando risco elevado de problemas cardíacos mesmo depois de se recuperarem da infecção.

O trabalho foi liderado pelo médico Sérgio Decker, especialista em medicina interna do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, em parceria com pesquisadores do Smith Center, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Os resultados foram publicados na revista científica Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes.

A análise reforça uma preocupação que já havia surgido durante a pandemia: o coronavírus não afeta exclusivamente os pulmões. A infecção pode desencadear uma resposta inflamatória no organismo e também está relacionada a alterações que atingem o sistema cardiovascular.

Quase metade dos idosos teve complicações cardiovasculares

Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi observado no primeiro ano após a recuperação.

Entre os idosos estudados que haviam sido hospitalizados com covid-19 durante a era da ômicron, 48,8% apresentaram algum evento cardiovascular grave ou morreram por uma doença relacionada ao coração no período de um ano após a alta.

Para efeito de comparação, entre pessoas que haviam sido hospitalizadas por gripe antes da pandemia, o índice foi de 33,4%. A diferença surpreendeu os pesquisadores porque a ômicron havia sido considerada uma variante responsável, em geral, por quadros menos graves do que as versões anteriores do coronavírus.

Os pesquisadores também apontam que o aumento do risco cardiovascular pode não desaparecer rapidamente. Segundo Sérgio Decker, existem dados indicando que essa ameaça pode permanecer elevada por até três anos após a infecção.

Como a covid pode afetar o coração?

Durante a pandemia, médicos observaram que pacientes infectados pelo coronavírus apresentavam diferentes tipos de complicações cardiovasculares, inclusive enquanto ainda estavam internados.

Uma das explicações está na própria resposta do organismo à infecção. Vírus respiratórios podem provocar uma inflamação sistêmica, que atinge diferentes partes do corpo e pode afetar diretamente o músculo cardíaco.

Além disso, o coronavírus possui mecanismos que podem favorecer sua interação com estruturas presentes no sistema cardiovascular. A inflamação também pode contribuir para a instabilidade de placas de gordura acumuladas nas artérias.

Quando uma dessas placas se rompe, um coágulo pode se formar e bloquear a passagem do sangue. Dependendo do local atingido, isso pode provocar um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC).

O médico ouvido pela reportagem ressalta ainda que o próprio comportamento durante uma infecção pode contribuir para o risco. Uma pessoa doente pode deixar de tomar corretamente medicamentos de uso contínuo, reduzir a ingestão de líquidos ou interromper temporariamente atividades físicas.

Mais de 1,1 milhão de idosos foram analisados

Para realizar o estudo, os pesquisadores utilizaram informações da base de dados do Medicare, sistema de seguro-saúde do governo dos Estados Unidos destinado principalmente à população com 65 anos ou mais.

Ao todo, foram analisados mais de 1,1 milhão de pacientes, divididos em diferentes grupos para permitir a comparação dos efeitos cardiovasculares associados às infecções.

Um dos grupos reuniu pessoas que tiveram covid-19 durante a fase de predominância da ômicron. Outro foi formado por pacientes infectados nas fases anteriores da pandemia, antes do surgimento da variante. O terceiro grupo incluiu pessoas que haviam sido hospitalizadas por gripe entre 2016 e 2018, antes da chegada do coronavírus.

Os pesquisadores fizeram ajustes para comparar indivíduos com características semelhantes e levaram em consideração diversos fatores que poderiam influenciar os resultados, incluindo condições socioeconômicas e características ambientais.

Mesmo após esses ajustes, os idosos que tiveram covid-19 durante a era da ômicron apresentaram uma situação cardiovascular mais preocupante do que aqueles hospitalizados por gripe.

Por que a ômicron era considerada mais leve?

A variante ômicron foi identificada na África do Sul em novembro de 2021 e rapidamente se espalhou pelo mundo. Naquele período, ela passou a ser considerada menos grave, principalmente quando comparada a variantes anteriores que provocavam mais casos graves e mortes.

Um dos fatores que ajudou a reduzir a gravidade da doença foi o avanço da vacinação contra a covid-19. Quando a ômicron chegou aos Estados Unidos, uma parcela muito grande da população já possuía algum nível de imunidade, seja pela vacinação ou por uma infecção anterior.

Por isso, embora a mortalidade tenha sido menor na era da ômicron, os resultados do novo estudo sugerem que isso não significou necessariamente ausência de consequências posteriores para o sistema cardiovascular.

Vacinação continua sendo importante

Os pesquisadores destacam que o estudo não permite afirmar que a vacinação tenha sido responsável diretamente pela redução ou aumento do risco cardiovascular, já que não havia informações completas sobre o histórico de imunização dos participantes.

Também não é possível concluir, a partir desse trabalho, que todos os idosos que tiveram covid-19 terão problemas cardíacos posteriormente.

O estudo analisou especificamente pessoas com 65 anos ou mais que foram hospitalizadas, portanto os resultados não podem ser automaticamente aplicados a toda a população, especialmente a pessoas que tiveram quadros leves e não precisaram de atendimento hospitalar.

Também não foi investigado o impacto da infecção em pessoas mais jovens. Segundo o pesquisador, é possível que exista algum aumento de risco cardiovascular nesse grupo, mas essa possibilidade ainda precisa ser estudada.

Cuidados depois da covid

A principal mensagem dos pesquisadores é que pessoas que tiveram covid-19, especialmente aquelas que apresentaram quadros mais graves ou precisaram ser hospitalizadas, devem continuar cuidando da saúde cardiovascular.

Quem já possui fatores de risco, como colesterol elevado, pressão alta ou outras doenças cardíacas, deve manter o tratamento prescrito e realizar acompanhamento médico.

Após uma infecção que exigiu atendimento hospitalar, uma avaliação médica pode ser importante para verificar a necessidade de acompanhamento cardiovascular e eventual ajuste dos tratamentos.

O estudo reforça ainda a importância de manter a vacinação contra a covid-19 atualizada, de acordo com as recomendações das autoridades de saúde, como forma de reduzir o risco de formas graves da doença e suas possíveis complicações.