Inteligência artificial muda o futuro do trabalho

20 de setembro de 2026

A expansão da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho pode provocar mudanças que vão muito além da criação ou extinção de empregos. A tecnologia também está alterando a maneira como as atividades são distribuídas, como as equipes são organizadas e até mesmo a relação entre trabalhadores e seus gestores.

Relatórios e estudos da London School of Economics (LSE) apontam que a adoção de sistemas de inteligência artificial pode modificar a estrutura das empresas ao redistribuir tarefas entre pessoas e máquinas. Atividades que antes dependiam exclusivamente de trabalhadores podem passar a ser parcialmente automatizadas, enquanto outras funções podem ganhar novas etapas e exigir diferentes níveis de conhecimento.

Uma das principais transformações ocorre na divisão das tarefas. Em vez de substituir completamente um profissional, a IA pode assumir determinadas etapas de uma atividade, como análise de informações, produção de textos, processamento de dados, atendimento inicial ao cliente ou identificação de padrões. O trabalhador passa, então, a supervisionar, revisar ou complementar o resultado produzido pela tecnologia.

Esse processo também pode mudar a forma de supervisão dentro das empresas. Sistemas digitais conseguem acompanhar indicadores de produtividade, distribuir tarefas, avaliar resultados e identificar padrões de desempenho. Com isso, decisões que tradicionalmente ficavam concentradas em gestores podem ser parcialmente apoiadas ou automatizadas por ferramentas de IA.

Impacto diferente entre os países

Os efeitos da tecnologia, porém, não são iguais em todos os lugares. Em países que enfrentam falta de trabalhadores, a inteligência artificial pode ser utilizada como uma ferramenta para aumentar a produtividade e compensar parte da escassez de mão de obra.

Nesses casos, a tecnologia pode assumir tarefas repetitivas ou auxiliar profissionais que já estão sobrecarregados. A IA também pode permitir que uma mesma equipe realize um volume maior de trabalho sem necessariamente aumentar o número de funcionários na mesma proporção.

Em outros mercados, entretanto, a preocupação está relacionada principalmente à possibilidade de automação de determinadas ocupações. Entre os grupos que podem sentir essas mudanças estão os trabalhadores que estão entrando no mercado pela primeira vez.

Funções consideradas de entrada, que tradicionalmente permitem que jovens adquiram experiência profissional, podem ser particularmente afetadas quando empresas passam a utilizar sistemas automatizados para executar tarefas básicas.

Isso cria um desafio adicional: se determinadas atividades iniciais forem realizadas por máquinas, os jovens podem encontrar menos oportunidades para conquistar experiência e desenvolver habilidades que seriam importantes para avançar posteriormente na carreira.

A experiência de trabalhar também pode mudar

Além da quantidade de empregos, outro aspecto importante é a própria experiência dos trabalhadores.

A utilização de inteligência artificial pode reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas e permitir que profissionais se concentrem em atividades que exigem criatividade, tomada de decisão, relacionamento interpessoal e conhecimento especializado.

Por outro lado, a tecnologia também pode aumentar o nível de monitoramento sobre os funcionários. Ferramentas capazes de acompanhar produtividade e desempenho podem fazer com que alguns trabalhadores tenham suas atividades avaliadas de maneira mais constante e detalhada.

A mudança também pode afetar a autonomia profissional. Dependendo de como os sistemas forem utilizados, trabalhadores podem ganhar novas ferramentas para tomar decisões ou, ao contrário, passar a seguir recomendações e metas definidas por algoritmos.

Novas habilidades serão necessárias

Com a transformação das atividades, a capacidade de utilizar ferramentas de inteligência artificial tende a se tornar cada vez mais relevante em diferentes profissões. Isso não significa apenas saber operar um programa, mas compreender como utilizar a tecnologia, conferir informações produzidas por sistemas automatizados e identificar possíveis erros.

Também ganham importância habilidades que dificilmente podem ser totalmente substituídas pela automação, como comunicação, criatividade, pensamento crítico, resolução de problemas e capacidade de trabalhar em equipe.

Dessa forma, o debate sobre inteligência artificial no mercado de trabalho não se resume à pergunta sobre quantos empregos serão perdidos ou criados. A discussão envolve também quem realizará cada tarefa, como os profissionais serão avaliados, quais habilidades serão valorizadas e como será a relação entre trabalhadores, gestores e máquinas.

A transformação provocada pela IA, portanto, pode acontecer mesmo quando um emprego não desaparece. Uma mesma profissão pode continuar existindo, mas com tarefas diferentes, novas formas de supervisão e uma relação cada vez maior entre trabalhadores e sistemas automatizados.