Queda da Voepass: laudo aponta negligências
Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo, a Polícia Federal concluiu o relatório final das investigações. Com mais de 200 páginas, o documento aponta uma série de falhas operacionais e de manutenção na aeronave e indica que o acidente poderia ter sido evitado, reforçando a tese de que a tragédia foi resultado de sucessivas negligências.
As conclusões foram apresentadas na terça-feira (30), durante uma reunião realizada em Campinas com familiares das vítimas, representantes da Associação das Vítimas do Voo 2283 e advogados que acompanham o caso. Segundo a Polícia Federal, a investigação identificou elementos suficientes para o indiciamento criminal de responsáveis pela operação da companhia aérea.
O acidente ocorreu em agosto de 2024, quando um avião turboélice da Voepass decolou de Cascavel (PR) com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. Durante o voo, a aeronave perdeu sustentação e caiu sobre um condomínio residencial em Vinhedo, provocando a morte de todos os 58 passageiros e quatro tripulantes. Apesar da gravidade do acidente, ninguém em solo ficou ferido.
As investigações concentraram-se principalmente no acúmulo de gelo nas asas da aeronave e em possíveis falhas no sistema de degelo. Conforme o relatório, esses fatores teriam comprometido o desempenho do avião, que entrou em uma queda em parafuso sem que a tripulação conseguisse recuperar o controle.
Além das análises técnicas, o inquérito reuniu informações obtidas por meio da caixa-preta da aeronave, incluindo as gravações da cabine de comando. As transcrições e demais laudos reforçaram a suspeita de que havia problemas recorrentes relacionados à manutenção da frota e à liberação de aeronaves para operação, mesmo diante de condições consideradas inadequadas para o voo.
Para a presidente da Associação das Vítimas do Voo 2283, Fátima Albuquerque, mãe de uma das vítimas, o material produzido pela Polícia Federal confirma que o desastre não foi um fato imprevisível, mas consequência de falhas acumuladas ao longo do tempo.
Segundo ela, a documentação revela uma cultura de normalização de riscos dentro da empresa, com manutenção insuficiente, falhas na comunicação de problemas técnicos e pressão sobre os profissionais para manter a operação, mesmo diante de situações que comprometiam a segurança dos voos.
Com a conclusão do relatório, o próximo passo será o encaminhamento do inquérito ao Ministério Público Federal, que analisará o material para decidir sobre o oferecimento de denúncia criminal contra os investigados. A expectativa dos representantes das famílias é que os responsáveis sejam processados e responsabilizados judicialmente pelas mortes causadas no acidente.
A Voepass participou da reunião realizada com os familiares das vítimas, mas não concedeu entrevistas após o encontro. Até a publicação das informações, a empresa também não havia se manifestado oficialmente sobre o conteúdo do relatório final da Polícia Federal.


