Sou mulher com DNA masculino: jovem narra descoberta como intersexo

25 de fevereiro de 2026

Aos 26 anos, Letycia Rosa, moradora de Amparo (SP), tornou-se viral nas redes sociais ao compartilhar sua história de autodescoberta como pessoa intersexo. A condição, que envolve variações biológicas do sexo que não se encaixam nas categorias tradicionais de masculino ou feminino, foi identificada na adolescência, após a ausência da primeira menstruação levar a uma série de exames.

Durante a investigação médica, Letycia descobriu que nasceu sem útero e ovários, além de possuir testículos internos, que foram removidos cirurgicamente — desmistificando a crença anterior de que se tratavam apenas de trompas atrofiadas. Nascida com cromossomos XY, que normalmente definem o sexo masculino, Letycia se desenvolveu como mulher e reafirma sua identidade feminina.

Diagnósticos e desafios

Inicialmente, ela recebeu o diagnóstico de Síndrome de Morris, condição na qual o corpo não utiliza adequadamente a testosterona produzida. Mais recentemente, especialistas identificaram a possibilidade de uma enfermidade ainda mais rara: a Deficiência da Enzima 17-alfa-hidroxilase, que pode causar baixa produção hormonal, pressão arterial elevada e deficiência de cortisol.

O endocrinologista Íkaro Soares Santos Breder, que acompanha Letycia, explicou que essas síndromes envolvem alterações hormonais profundas que impactam tanto o desenvolvimento como a saúde geral.

A trajetória de Letycia

A jornada começou aos 15 anos, quando a ausência da menstruação levou a exames que mostraram sua anatomia atípica. A reverberação do diagnóstico, a perda do pai em 2016 e o cuidado com sua avó foram desafios que afetaram seus planos pessoais e acadêmicos. Após uma cirurgia e início de tratamento hormonal, dificuldades financeiras e questões emocionais como depressão e ansiedade se manifestaram, comprometendo sua qualidade de vida.

Somente em 2024, durante uma nova consulta no Hospital da Mulher da Unicamp (Caism), ela recebeu a confirmação de que, ao invés de trompas, ela tinha testículos removidos, consolidando o diagnóstico de intersexo.

Reflexões e representatividade

Embora a descoberta tenha trazido consequências emocionais profundas, como o luto pela impossibilidade biológica da maternidade, Letycia usou sua experiência para questionar preconceitos e ampliar o debate em torno das identidades intersexo. Ela enfatiza que sua essência feminina não está restrita ao DNA, destacando a importância da autoidentificação e da visibilidade para outras pessoas que vivem situações semelhantes.

A jovem também enfrentou desafios físicos, como uma cirurgia no fêmur decorrente de alterações ósseas associadas à síndrome, e responsabilidades familiares. Durante a recuperação, aprofundou seus estudos sobre a condição, o que a ajudou a reafirmar sua identidade e a se posicionar publicamente como uma voz representativa da comunidade intersexo.

Contexto científico sobre intersexo e síndromes associadas

Intersexo é um termo abrangente para pessoas nascidas com variações biológicas no desenvolvimento sexual, que não se encaixam nas definições tradicionais de masculino ou feminino. Essas variações podem ser cromossômicas, hormonais ou anatômicas.

A Síndrome de Morris, ou disgenesia gonadal, caracteriza-se pela presença de cromossomos XY, mas com testículos que não produzem testosterona ativa, resultando em características femininas externas apesar do DNA masculino. A Deficiência da Enzima 17-alfa-hidroxilase é um distúrbio raríssimo que afeta a produção hormonal, podendo causar pressão alta, alterações no cortisol e desenvolvimento sexual atípico.

Letycia Rosa espera que seu relato contribua para a ampliação da compreensão social sobre a diversidade sexual, ajudando a promover respeito, inclusão e suporte para pessoas intersexo.

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